Assim como acontece no Brasil, com as famigeradas Medidas Provisórias – amplamente utilizadas por FHC e ainda mais intensamente aplicadas por Lula – na Argentina é possível aplicar medidas imediatas, através de resoluciones assinadas pelo presidente. Foi o que Cristina Kirchner fez em março deste ano, criando as retenciones móviles, que se tratam de impostos sobre as exportações de alguns produtos agrícolas, cujos percentuais variam de acordo com a variação dos preços internacionais – daí o termo móvil.

Retenciones sobre exportações já vinham sendo aplicadas desde o governo de seu marido, Nestor Kirchner, porém em percentuais menores e sem a mobilidade da nova proposta. O setor agropecuário, como um todo, levantou-se contra a medida autoritária, gerando a maior crise política desde a maxidesvalorização de 2001, que permitiu à Argentina alcançar o recorde de 3 presidentes diferentes em 1 semana, após a deposição de Fernando de la Rúa.

Com o paro general proporcionado pelo setor agrícola, bloqueando caminhões com cargas agropecuárias por mais de um mês, o prejuízo causado foi fenomenal, chegando ao extremo insólito de faltar carne em Buenos Aires, num país onde a pecuária é orgulho nacional. A popularidade de Cristina foi ao solo, especialmente por sua postura intransigente e arrogante em relação ao problema – praticamente chamando os grevistas de vagabundos (a/c Kassab).

Porém, como acontece também no Brasil, uma resolución deve ser votada no Congresso e no Senado, para que se torne lei. O partido Justicialista, da presidente da república argentina possui ampla maioria em ambas casas. Porém, como eu já havia informado antes, o cenário começava a mudar, gerando rebeldias dentro do partido. O principal inimigo começou a despontar como sendo o próprio vice-presidente argentino, Julio Cobos (a/c Yeda), que passou a manifestar-se contra o projeto das retenções móveis.

Nem o mais incrível enredo ficcionista poderia prever o sensacional desfecho ocorrido. Após o projeto ter sido aprovado no congresso, uma tensa e longuíssima votação (18 horas) no Senado terminaria empatada em 36 votos para cada lado. Adivinha quem desempatou?