Internacionalização – uma questão de vontade

15 07 2013

Você tem uma pequena indústria, que já conta com um considerável reconhecimento no mercado local – não necessariamente em nível nacional – que tem ou pretende ter capacidade ociosa considerável no curto prazo? As vendas no mercado interno caíram ou estão estagnadas? A taxa de câmbio tornou-se muito favorável nos últimos tempos? Se você pretende internacionalizar sua empresa baseado nestes fatores, pense melhor. Talvez não seja uma boa decisão.

Os fatores citados no parágrafo anterior são bons indicadores para se realizar um início promissor de internacionalização. Um deles é pré-requisito – a disponibilidade de capacidade ociosa. Outro é recomendável – a notoriedade no mercado local. A taxa de câmbio favorável pode impulsionar a competitividade da empresa, mas não é recomendável apoiar-se demasiado neste item, já que a taxa cambial, por sua natureza, oscila e não é algo controlável pelo empreendedor.

Porém, nenhum destes fatores terá relevância caso uma condição fundamental não seja respeitada: a empresa precisa QUERER internacionalizar-se. Para querer a internacionalização, não precisa estudar comércio exterior, nem espelhar-se em outras empresas do setor, que eventualmente já estão operando com o exterior. Se o empresário, ao ser questionado sobre a possibilidade de realizar transações internacionais disser algo parecido com “posso tentar fazer e ver no que dá”, pode ser o prenúncio de um fracasso anunciado.

É importante enfatizar este ponto sem necessariamente desencorajar o empresário a buscar o mercado mundial. Quando entrevisto presidentes, diretores e gerentes de empresas que estão pensando em começar a exportar – tradicionalmente o primeiro passo para a internacionalização – sempre lhes pergunto vários porquês: Por que querem exportar? Por que agora?  Por que acreditam que terão sucesso? As respostas precisam ser coerentes e, principalmente, dar a entender que a decisão de internacionalizar a empresa atende a um objetivo estratégico, de longo prazo.

Isso é fundamental, por uma simples razão: se a alta cúpula da empresa realmente QUER exportar, vê isso como algo estratégico, ela LUTARÁ para que isso se realize. Do contrário, na primeira ou segunda dificuldade (e elas não tardarão a aparecer), eles desistirão ou deixarão de dar o suporte necessário para o sucesso do empreendimento. Assim sendo, todo o esforço anteriormente dedicado terá sido em vão, ou ainda pior, poderá haver danos à imagem da empresa junto aos mercados onde ela se expôs, dificultando ou impossibilitando uma futura retomada do projeto internacional.

Multimodais

Recomendo aos empresários que estão considerando começar alguma atividade internacional, seja ela simples como exportação e importação, ou mais complexa, como uma joint venture, licenciamento ou mesmo o investimento em operações no exterior que, antes de fazê-lo, participem de alguma missão internacional e visitem feiras relevantes do seu setor em mercados maduros ou potenciais mercados-alvo. Também podem contatar sua entidade de classe, seja sindicato patronal ou associação, para verificar se há algum projeto setorial de desenvolvimento de exportações para sua área de atividade.

Se depois de toda esta análise, a empresa não tem dúvidas de que quer lançar-se ao mercado internacional, bravo! Agora vamos buscar os meios para fazê-lo. Há várias formas de se fazer isso, com recursos humanos próprios, terceirizados ou combinando ambos formatos. É possível atuar num sistema empírico de “tentativa e erro” ou estruturar um plano detalhado de exportação. A empresa pode optar pela internacionalização gradual – na qual a firma inicia suas vendas para mercados próximos, expandindo suas fronteiras na medida em que ganha experiência (Johanson e Vahlne, 1977) – ou, no caso de uma nova empresa, que ela já seja projetada considerando o mercado externo – uma chamada born global (McDougall e Oviatt, 2000). Evidentemente, há muitos outros caminhos possíveis, além dos acima citados.

Quando a empresa se internacionaliza, amplia tremendamente seus horizontes. Seu mercado-alvo já não está restrito ao seu país, há muitas outras opções. Seus concorrentes já não são apenas aqueles que atuavam no seu mercado local – pode haver vários outros nos mercados-alvo internacionais. Você passará a ter uma noção muito mais clara do conceito de “preço internacional” – pode ser que a simples remoção da tributação do preço de mercado interno não seja suficiente para competir no exterior. As condições mercadológicas em alguns mercados externos podem estar completamente diferentes das do mercado local. O seu produto talvez não esteja adequado às necessidades dos mercados externos – adaptações podem ser necessárias.

Uma coisa é certa: depois que a empresa se internacionaliza, ela fica muito melhor. Fica por dentro das últimas tendências, mais competitiva, melhor organizada. Ela se prepara para vencer, seja em casa, ou fora.

E então? Você realmente QUER internacionalizar a sua empresa?

 

Gustavo Zanuz
Consultor especialista em internacionalização
GZ – Consultoria Empresarial Ltda.
(54) 9925-2706
gustavo@gzconsultoria.com





O projeto ABC (parte 2)

28 05 2013

Esta é a sequência do meu artigo anterior, que está sendo escrito baseado em um discurso do presidente argentino Juan Domingo Perón, proferido na Escuela Nacional de Guerra em 1953. Neste discurso, Perón relata à plateia seus esforços na tentativa de realizar uma união entre Argentina, Brasil e Chile (daí o nome ‘ABC’), com o objetivo de proteger estas nações contra eventuais tentativas das grandes potências de tomar para si os recursos naturais abundantes e também para fortalecer as economias destes três países, num primeiro momento e, em seguida, de toda a América do Sul. Recorrendo a referências históricas, especialmente do sonho dos “Libertadores da América” (Simon Bolívar, San Martín, O’Higgins), Perón faz, no meu entender, uma excelente leitura dos riscos e oportunidades existentes no mundo imediatamente após a Segunda Guerra Mundial e lança uma ideia que, se executada adequadamente, poderia ter sido a base de um projeto muito mais ambicioso que o combalido Mercosul.

A partir de agora, uma análise do restante do discurso, quando Perón faz um relato dos problemas que experimentou ao tentar criar entendimento entre os três países e sua leitura das causas do fracasso.

Perón relata que falou com aqueles que seriam presidentes em seus países – Getúlio Vargas, no Brasil e o general Carlos Ibáñez, no Chile. Não menciona quando houve os contatos, mas deve ter sido em 1950 ou 1951, já que Vargas tomou posse em 1951 e Ibáñez, em 1952. Disse que Getúlio Vargas estava totalmente de acordo com a ideia e que a poria em prática tão logo estivesse no governo e que o Gen. Ibáñez tinha igual opinião. Igualmente JDP disse que não se iludia com essas promessas, já que muitas vezes entre o desejo e a execução há uma grande distância e que, no caso específico do Brasil, havia um empecilho adicional – o Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores) que era um órgão supranacional, não controlado pelo governo. Eu incluiria um outro e mais importante empecilho – as Forças Armadas, mas é claro que o General Perón não faria isso, especialmente na Escola Nacional de Guerra.

Segundo o mandatário argentino, o Itamaraty entendia que o Brasil deveria estar numa posição hegemônica na América do Sul e, nas palavras dele, por parte da Argentina “son Ustedes más grandes, más lindos y mejores que nosotros; no tenemos ningún inconveniente”. Evidentemente são palavras carregadas de sarcasmo.

Vargas teria dito a Perón, já como presidente, que precisava dominar as câmaras legislativas antes de encaminhar este assunto – lhe pediu um pouco mais de tempo – seis meses. Passado o período, a situação estava ainda pior (segundo Vargas, ele estava “num mar de lama”) e Perón conversa com Ibáñez, recém empossado, que lhe diz que está de acordo e que aceita fazer imediatamente a aliança.

Perón escreve uma carta a Vargas e a encaminha através do embaixador brasileiro na Argentina, pedindo autorização para fazer o acordo primeiramente com o Chile, já que o prazo acordado havia expirado e o presidente brasileiro não demonstrava condições de evoluir nesta questão. A resposta recebida não só lhe dava autorização para fechar o acordo com o Chile, como também lhe autorizava a Perón a representar Vargas a fazer o acordo em nome do Brasil.

Neste momento Perón faz um comentário curioso:

“Naturalmente, ya sé ahora muchas cosas que antes no sabía; acepté sólo la autorización, pero no la representación”.

Quais seriam estas “muchas cosas”? E como ele teria sabido disso?

De qualquer forma, Perón foi ao Chile e reuniu-se com Ibáñez que, após algumas ressalvas, aceitou o acordo com a Argentina. Segundo o mandatário argentino, no dia seguinte ao fechamento do acordo, ainda no Chile, chegam notícias do Rio de Janeiro dizendo que o Ministro das Relações Exteriores brasileiro da época – João Neves da Fontoura, ministro de extrema confiança de Getúlio, deu várias declarações contrárias ao Pacto de Santiago (como estava sendo chamado o acordo), dizendo que ia contra os pactos regionais e que era a destruição da “Unidade Panamericana”. Disse que ficou totalmente “sem cara” quando o presidente Ibáñez, ao dar o bom-dia ao presidente argentino, comentou: “Qué me dice de los amigos brasileños”?

Quando Perón voltou a Buenos Aires, encontrou-se com o jornalista Geraldo Rocha, diretor de “O Mundo” e, segundo ele, muito amigo de Vargas. Rocha teria sido enviado por Vargas a Buenos Aires para informar-lhe que as coisas estavam muito complicadas no Brasil, seca no Norte, geadas no Sul, políticos em polvorosa e comunismo em alta. Que ele (Vargas) não pensava assim (da forma como disse o ministro Neves da Fontoura) mas que não podia mandar nele.

De fato, a situação de Vargas era complicadíssima. As coisas estavam tão fora de controle que, um ano depois, depois do atentado da rua Tonelero, em que o principal adversário político de Vargas, Carlos Lacerda, é alvo de uma tentativa de assassinato na frente de sua residência (acabou falecendo um major da aeronáutica, que estava no carro junto de Lacerda e seu filho).  Este fato desencadeia uma forte oposição dos militares ao governo Vargas (a quem foi atribuído o mando do atentado) que culminou no suicídio do presidente brasileiro.

Após este fato, o discurso de Perón encaminha-se para seu final, dizendo que os países têm de preparar-se para os grandes conflitos, não apenas entre dois países, que estava confiante de que a Argentina seguia pelo bom caminho e que acreditava que, em algum momento, isso (o acordo ABC) evoluiria. Inclusive mencionam o Paraguai como um possível próximo entrante e, de acordo com ele, eles poderiam incluir este e outros países sulamericanos no acordo até que não restasse opção ao Brasil senão aderir também.

Vou transcrever integralmente o último parágrafo, que diz muito desta visão muito peculiar do presidente argentino:

“La unión continental a base de Argentina, Brasil y Chile está mucho más próxima de lo que creen muchos argentinos, muchos chilenos y muchos brasileños; en el Brasil hay un sector enorme que trabaja por esto. Lo único que hay que vencer son intereses; pero cuando los intereses de los países entran a actuar, los de los hombres deben ser vencidos por aquéllos, ésa es nuestra mayor esperanza.

Hasta que esto se produzca, señores, no tenemos otro remedio que esperar y trabajar para que esto se realice; y ésa es nuestra acción y ésa es nuestra orientación.

Muchas gracias.”

Não sei se este discurso é sincero, se é demagógico (provavelmente não, já que este tipo de assunto não gera popularidade interna) ou se havia alguma intenção obscura por trás. Mas a verdade é que me surpreendeu muito que a Argentina tivesse esta visão de unificação da América do Sul no pós 2a Guerra Mundial. E, creio que se tivesse sido executada na época, estaríamos numa situação totalmente diferente hoje.





O projeto ABC (parte 1)

6 05 2013

Gostaria de compartilhar com vocês um assunto que me foi apresentado durante o meu MBA Executivo Internacional, que cursei na UFRGS entre 2011 e 2012. Foi na disciplina do meu caro professor (e agora orientador da minha dissertação de mestrado) Walter Nique, que estava apresentando as origens do Mercosul. Confesso que nos meus 5,5 anos do curso de Comércio Exterior não passamos nem perto deste texto, que muito me estarreceu.

Vamos a ele.

Em 1953, muitos países da América Latina era comandada por ditaduras, militares ou civis. Ou por ex-ditadores. A Argentina estava quase no fim do segundo mandato do General Juan Domingo Perón, possivelmente o mais popular de todos os presidentes daquele país. Tanto que até hoje, uma das vertentes do Partido Justicialista é denominada de “Peronista”. O Brasil era comandado por Getúlio Dorneles Vargas, democraticamente eleito, que viria a suicidar-se no ano seguinte. O Chile era presidido por Carlos Ibáñez Del Campo, militar democraticamente eleito, também.

Perón era um presidente amplamente popular, tendo sido responsável por uma legislação que ampliava direitos dos trabalhadores, embora seu país estivesse passando por dificuldades, algumas delas atribuídas às leis potencialmente “populistas” aprovadas por ele. Muitos argentinos reconheciam uma “semidivindade” na figura do viúvo de Evita.

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O que me deixou impressionado foi o conteúdo desse discurso de Perón. Na minha humilde opinião, é um ponto de vista inovador para os padrões da época e que poderia perfeitamente posicionar o mandatário argentino como um visionário, já que, se a sua ideia tivesse sido bem recebida pelos três países e sido aplicada ainda naquela época, talvez poderíamos ser nações bem-sucedidas hoje. Quero me aprofundar e vou citar alguns trechos do texto aqui. Mas recomendo sua leitura integral.

Perón, em 1953, abriu seu discurso afirmando que o mundo estava SUPERPOVOADO e super industrializado também. É um pouco engraçado, já que em 1953 o mundo deveria estar com aproximadamente 2,5 bilhões de habitantes, muito menos da metade dos atuais 7 bilhões. O Brasil tinha uns 55 milhões (hoje são 200 mi) e a Argentina tinha cerca de 17 milhões e hoje conta com pouco mais de 40 milhões de habitantes. Provavelmente, com esta visão algo malthusiana, ele dificilmente imaginaria que o mundo estava longe de estar superpovoado. E que a industrialização ainda tinha muito campo para crescer, especialmente na Ásia. Mas, com base nessa lógica, ele percebeu que a América do Sul, relativamente menos populosa e com grande oferta de recursos naturais e terras aráveis, poderia ser chave para alimentar (literalmente) este crescimento.

Es indudable que nuestro continente, en especial Sudamérica, es la zona del mundo donde todavía, en razón de su falta de población y de su falta de explotación extractiva, está la mayor reserva de materia prima y alimentos del mundo. Esto nos indicaría que el porvenir es nuestro y que en la futura lucha nosotros marchamos con una extraordinaria ventaja frente a las demás zonas del mundo, que han agotado sus posibilidades de producción alimenticia y de provisión de materias primas, o que son ineptas para la producción de estos dos elementos fundamentales de la vida.

(Ele repete MUITAS vezes a palavra “indudable”, inclusive em temas meio duvidosos. Acho que ouvindo o discurso isso talvez não incomodou tanto, mas ao ler a transcrição, salta aos olhos).

Depois, ele expõe que a falta de alimentos ou matérias-primas poderiam fazer as nações superpovoadas e superindustrializadas e, portanto, detentoras de grande poder, de usá-lo para obterem o que necessitassem, “quitándolos por las buenas o por las malas”, usando as palavras do próprio Perón. Eu não gosto nada de teorias conspiratórias nem de paranoias, mas, nos tempos atuais e principalmente nos futuros, quem pode descartar essas hipóteses?

Em seguida, enumera diversas oportunidades de união continental na América do Sul desde 1810, com San Martín, Bolívar, Congressos do México, admitindo que a Argentina foi uma das principais culpadas pelo fracasso destas tentativas, por uma visão “isolacionista
e egoísta” de seus antecessores. Segundo ele, o Chile foi um dos principais defensores da iniciativa. É importante ressaltar que, num primeiro momento, o discurso de Perón está mais justificado na união dos países pela DEFESA do continente, considerando a visão meio paranoica, meio realista de que somos (América do Sul) vulneráveis.

Los grandes imperios, las grandes naciones, han llegado desde los comienzos de la historia hasta nuestros días, a las grandes conquistas, a base de una unidad económica. Y yo analizo que si nosotros soñamos con la grandeza que tenemos la obligación de soñar para nuestro país, debemos analizar primordialmente ese factor en una etapa del mundo en que la economía pasará a primer plano en todas las luchas del futuro.

La República Argentina sola, no tiene unidad económica; Brasil solo, no tiene tampoco unidad económica; Chile solo, tampoco tiene unidad económica; pero estos tres países unidos conforman quizá en el momento actual la unidad económica más extraordinaria del mundo entero, sobre todo para el futuro, porque toda esa inmensa disponibilidad constituye su reserva. Estos son países reservas del mundo.

Grifei algumas frases do parágrafo acima que dão conta da ideia da união ABC (Argentina, Brasil e Chile) como forma de criar a “unidade econômica mais extraordinária do mundo” entre os “países reservas mundiais”. Há de se lembrar, sempre, que a realidade de 1953 certamente diferia muito da atual, embora o agronegócio e a extração mineral continuam sendo os carros-chefe da economia dos três citados países.

Não disponho atualmente de tempo para aprofundar-me melhor sobre outras fontes de informação que pudessem “casar” melhor este discurso com dados brasileiros e chilenos, além de outros comentários da própria Argentina. Desejo muito fazê-lo logo em breve. Portanto, tomarei aqui somente o conteúdo deste discurso, supondo que algumas de suas afirmações sejam verdadeiras. Faço esse parêntese porque Perón diz, um pouco mais adiante, que esteve, nos seis anos de seu primeiro mandato, preparando o povo para aceitar esta proposta. Diz também que conversou tanto com Vargas como com Ibáñez e ambos receberam muito bem a ideia.

Perón diz não se iludir demasiado com tais manifestações, pois tinha consciência de que o desejo do presidente pode passar bem longe da possibilidade de torná-lo realidade. E que sua concretização passaria pela oposição de setores muito poderosos nos três países. No seu entendimento, essa união teria que emergir do povo, não dos governos. Gostei muito dessa frase, pois ajuda a explicar porque a União Europeia é um sucesso (e é sim um sucesso, mesmo com a atual crise) e porque o Mercosul está definhando.

Nos próximos dias publicarei a continuação dessa análise, especialmente sobre o resto do discurso de Perón, onde ele descreve os fatos seguintes e as tentativas de firmar os acordos com o Chile e o Brasil.





Minha experiência na Arena

31 03 2013

Neste final de domingo de Páscoa, resolvi não ficar falando sobre política ou economia e, sim, sobre o ópio do povo, o futebol. Mas, como eu ando meio fissurado nisso, não é sobre o desempenho futebolístico do Grêmio e, sim, sobre questões políticas e sobre o “imbróglio Arena”. Mas, por ora, vou apenas relatar minha experiência o novo estádio, deixando a questão política para um próximo post, que devo preparar logo em seguida.

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Essa foto eu mesmo tirei, no dia 30 de janeiro, durante o confronto Grêmio x Liga Deportiva Universitária, pela primeira fase da Copa Libertadores de 2013. Essa foi minha estreia no novo estádio e, até agora, minha única ida à Arena. Mais abaixo colocarei outras fotos do estádio, para ilustrar.

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Visão do ponto onde estava localizado, dentro da Arena

Vou falar um pouco sobre minha experiência nesse jogo específico: chegamos muito mais cedo do que precisava, muito pela falta de experiência com a região de Porto Alegre onde está o novo estádio – uma novidade pra mim, mas também porque eu queria chegar cedo e “sentir” a Arena em sua plenitude. Havia uma expectativa de estádio lotado – que não se confirmou, mas ficou na faixa dos 40.000 lugares, o que seria equivalente ao Olímpico cheio.

Chegando lá, vi uma enorme fila para retirada de ingressos, que é inexplicável com as tecnologias atuais e que já vinham sendo utilizadas no Olímpico. Me entristece saber que isso ainda não foi corrigido, dois meses depois. Esse problema eu não tive, já que sou sócio migrado, com local garantido em todos os jogos. Para mim, basta passar a carteirinha na catraca, igual que no “velho casarão”. Mesmo assim, considerando que a maioria dos expectadores são sócios-torcedores, não entendo porque a Arena Portoalegrense ainda não uniu seu sistema com o do Grêmio para permitir que a torcida compre seus ingressos pela internet, carregando suas carteirinhas. Não consigo entender.

Na “esplanada”, que circunda o estádio em nível elevado, depois de subir a rampa, há espaço para muitos estabelecimentos, onde os torcedores poderiam circular antes dos jogos, para comer, comprar, visitar o Memorial Hermínio Bittencourt (que estava começando a ser montado naquela ocasião). Por enquanto a Brigada Militar quer liberar os torcedores antes da rampa, fazendo com que o gargalo seja ali, não nas catracas dos portões. Evidentemente, desta forma essa ideia acaba não sendo viável, portanto, espero que a BM passe a fazer a revista nos portões, como sempre foi feito no Olímpico.

Na entrada do portão (não lembro que letra era), uma sala muito bem iluminada e moderna, com acesso às escadas e elevadores que levam ao último anel, onde ficaríamos. São muitos lances de escada até chegar lá.

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No último anel, é possível acessar toda a circunferência do estádio, passando por vários banheiros e copas. Nem todas as copas estavam abertas, mas creio que eram suficientes para a demanda. Comprei um refrigerante e não tive problema algum de demora ou algo neste sentido. O banheiro que entrei estava em péssimas condições, reforçando as críticas da estreia (contra o Hamburgo) e também no Jogo contra a Pobreza. Parece que agora isso está resolvido, mas obviamente ainda não pude ver pessoalmente.

Acessando o meu setor, a visão é deslumbrante. Apesar de estar “nas alturas”, a sensação é que o campo está ali, bem pertinho. E, de fato, se vê muito bem os jogadores de qualquer lugar do estádio. A verticalidade é tanta que, dependendo da estatura da pessoa que estiver à sua frente, é possível assistir ao jogo sentado mesmo que ela esteja de pé. Mas o ideal é que todos se mantenham sentados.

O som da torcida realmente reverbera com intensidade maior do que no Olímpico, como se previa. Acredito que mesmo sem lotação completa o som da torcida deve causar impacto. Com aquilo cheio, tenho pena dos adversários…

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Durante o jogo, houve alguns bate-boca entre torcedores que insistiam em ficar de pé, mesmo sabendo que isso prejudicava todos os demais. Acho que isso não será resolvido tão cedo, dependerá muito da colaboração e, principalmente, da conscientização de todos. Também houve o famoso e triste incidente da avalanche mal-sucedida. Nunca fui muito a favor da avalanche pelos óbvios riscos que causam aos praticantes, em qualquer lugar onde ela é executada. Fiquei decepcionado com a má qualidade do trabalho realizado pela construtora, que prometera que esta área seria adequada para a prática. E fiquei indignado com a forma como os Bombeiros e a Brigada estão exigindo cadeiras, em vez de simplesmente completar esta área com barras pára-avalanches, que seriam suficientes para resolver o problema. Com isso seria mantida essa região mais popular do estádio, lembrando a forma tradicional brasileira de se torcer. Outra decepção.

Fora isso, algumas ressalvas sobre a má qualidade do acabamento nas áreas internas. Saindo das cadeiras, ao descer as escadas um dos corrimões estava solto, o parafuso que o prendia ao piso havia se desprendido. Vi fotos mostrando cadeiras sem parafusos e outros exemplos de mau acabamento, sem falar do problema dos banheiros, já mencionado. Entendo que houve pressa para a inauguração, mas agora penso que já é tempo mais que suficiente para finalizar a obra e fazer um acabamento decente.

O que eu quero deixar de mensagem final, para todos os torcedores gremistas é que a Arena é o NOSSO ESTÁDIO. Não apenas isso, ele é FANTÁSTICO. É o melhor estádio onde já estive (e sim, já estive em modernas arenas europeias) e acredito sim que, pelo somatório da obra, será o melhor estádio do Brasil depois de 2014. Então vamos dar valor a ela, mesmo depois do que a gestão Koff está fazendo. Acho isso triste demais e vou fazer um post para falar sobre isso.

Vão para a nossa Arena. Vale muito a pena.





A fonte da riqueza

24 03 2013

Estou de volta das minhas curtas mas muito proveitosas férias. Foi nossa primeira viagem “de avião” com o Gui, mas infelizmente não é nada que merecesse um ou mais posts, como em outras viagens que já fizemos e relatei bem neste espaço.

Quero comentar um texto do Juremir Machado, colunista do Correio do Povo, abertamente esquerdista. Não pretendo criticar o teor do texto em si, já que seria injusto, uma vez que eu não me considero de esquerda e isso acabaria sendo uma briga de gato e rato. Mas, a bem da verdade, eu acho que ele acerta em explicar a alta popularidade da presidenta Dilma, comparando-a com FHC e o próprio Lula, nos seus primeiros dois anos de mandato. Não sei se alguém em sã consciência negaria que aumentou a distribuição da renda e que a classe média cresceu e se fortaleceu durante o período do governo do PT. E compara corretamente com a situação da Venezuela, que usou de artifícios semelhantes durante o reinado de Chávez e agora colhe popularidade infinita, que deverá eleger facilmente Maduro como seu sucessor, dentro de alguns dias. Juremir parece criticar, em seu texto, aqueles que tentam enxergar pontos falhos nesta estratégia, taxando-os de quererem o “ideal”, não o “real”. Essa é a minha deixa.

Parece que todos se esquecem que todo dinheiro, sem exceção alguma, vem de algum lugar. No caso da Venezuela, vem da imensa reserva de petróleo, que ampliou sua valorização enormemente durante o mandato de Chávez, gerando igualmente imensas reservas financeiras para o país. O petróleo é finito, todos sabemos, mas a Venezuela garante que tem reservas para muitas décadas ainda, mesmo considerando a rápida expansão do consumo. E, embora todas as commodities possam ter reduções em suas cotações, parece pouco provável que isso aconteça com o petróleo. Ou seja, é garantia de muita grana para o país caribenho, que pode continuar sendo distribuída aos mais necessitados sem alterar a matriz produtiva do país. Pode inclusive tornar o país o caso comunista de maior sucesso desde a União Soviética.

No caso do Brasil, também está relacionado ao preço das commodities, mas dos produtos agrícolas e dos minérios. Os gordos superávites na balança comercial em vários anos consecutivos deu ao país margem para várias experiências populistas, algumas pragmáticas, como as diversas BOLSAS e outras ufanistas, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas com dois anos de diferença entre ambos eventos. A gastança é gigantesca e parece estar cada vez maior. Além disso, o Brasil está aumentando muito o controle e o intervencionismo sobre a economia, fatores que sempre aumentam a desconfiança dos investidores e, por conseguinte, reduzem o investimento privado. Mas essas ações, segundo Juremir, devem ser boas, pois a presidenta é super popular e é o povo que sabe mais, pois julga pelo real.

Pela lógica do Juremir, o futuro não é importante, o importante é o agora, a necessidade imediata. Pragmatismo. É óbvio que o imediato é importante para quem nada ou muito pouco tem. Mas, como bem diz a velha parábola “melhor que dar o peixe é ensinar a pescar”, temos que pensar no futuro, pois essas condições favoráveis podem ir embora amanhã. Educação e competitividade. O que está acontecendo?

Enfim, acho que mesmo os jornalistas de esquerda precisam aprender a enxergar mais de longe. E entender que o comodismo pode ser o começo do fim. Criticar não é necessariamente descartar o que houve de bom, mas ajustar para ficar ainda melhor.





E como fica sem o comandante?

11 03 2013

Terça-feira passada tivemos o anúncio oficial do falecimento de Hugo Chávez Frías, o controverso ditador PRESIDENTE da Venezuela. Ou, como ele mesmo re-denominou, República BOLIVARIANA da Venezuela. Seja lá o que este grifo signifique.

Muita gente, mesmo pessoas que não estavam acompanhando esta situação com tanta atenção, estão dizendo que o Chávez já estava morto antes mesmo de retornar à Venezuela. Se isso é relevante ou não, prefiro nem opinar. Realmente não me importa se foi semana passada ou há dois meses.

Mas se este tipo de questão está sendo levantada, a culpa é do falecido mandatário. Pois foi ele que bagunçou a estrutura institucional de SEU país, a ponto de sentir-se mais seguro tratando sua doença em Cuba do que na sua própria nação. Ele que combateu a imprensa livre tão ferozmente que hoje ninguém confia nas informações oficiais. Fechou o país.

Agora, como em todo caso de falecimento, há uma tendência em se amplificar seus feitos e qualidades. Acontece sempre que alguém morre, nenhuma surpresa nem erro nisso. Porém, há um agravante: já se marcou novas eleições presidenciais para 30 dias. Não me surpreendeu nada o interesse dos chavistas nessa convocação relâmpago: querem justamente aproveitar o endeusamento de Hugo Chávez para rapidamente eleger um sucessor do mesmo partido, ainda que sem reconhecimento popular. A cada dia que o embalsamado corpo da reencarnação de Símon Bolívar esfriar, as chances do Partido Comunista Venezuelano se perpetuar no poder diminuem.

Mesmo que Nicolás Maduro vença (e eu apostaria uma boa grana nisso, se a tivesse), já não haverá a BONACHONA figura para odiar. Mas não nos preocupemos. Há pelo menos uma excelente candidata ao seu posto.

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Oi Cris





Para onde estamos indo?

3 03 2013

Como faz muito tempo que não escrevo nada decente, há muito para fazer. Por isso, vou começar demonstrando um pouco da minha preocupação com os rumos que o nosso país está tomando, ou aparenta tomar.

Sem querer parecer um daqueles pessimistas incorrigíveis, especialmente pelo fato de que o país está sendo governado por partidos com os quais não compartilho preferência (e nunca escondi isso de ninguém), vou começar este post usando o velho clichê de que coisas boas e ruins foram feitas por este governo. Mas não temo represálias em dizer que são mais coisas ruins que boas. E, pior, se tudo continuar como está atualmente, no primeiro momento em que os ventos mudarem e a tempestade se avizinhar, estaremos em maus lençois.

O problema é que, como já acontece há muito tempo, os grandes problemas estruturais não são tocados pelo governo. Reforma previdenciária, para quê? Redução da carga tributária? Não faça-me rir! Trabalhar para aumentar REALMENTE a competitividade da nação? Não vejo muito nesta direção.

Lembro-me que a presidenta Dilma Rousseff, em pronunciamento em rede aberta de televisão, por conta do feriado da independência do Brasil, ano passado, disse que o termo COMPETITIVIDADE passaria a ser um objetivo deste governo. Naquele momento, fiquei muito satisfeito, pois eu compartilhava desta ideia. O Brasil precisa ser competitivo para conseguir realmente prosperar a longo prazo. Logo em seguida, ela anuncia uma redução no preço da tarifa da energia elétrica, em nível nacional.

Uma presidenta da República anunciando redução de tarifa de eletricidade? Pensei: isso não está certo! Pior ainda foi quando eu descobri, nos dias seguintes, que esta redução nem havia sido negociada com as partes envolvidas. Um triste e lamentável canetaço, como tantos outros que já haviam acontecido antes ou seriam ainda realizados.

É este o meu principal ponto: o governo atual está muito dedicado a fazer pequenos arranjos de forma muito pontual, para setores específicos. Simplificando, eles estão aumentando ou tentando aumentar o controle sobre toda a economia, mexendo os pauzinhos de acordo às suas conveniências. Essa forma de agir lembra um pouco os governos planificados da União Soviética, antigamente, ou da China, atualmente. E lembra a forma de atuar da Venezuela e da Argentina, que dispensam comentários.

Para mim, o discurso não está consonante com a prática executada pelo governo do Brasil. Um outro e importante exemplo é a falência das negociações bi-laterais e multi-laterais do Brasil e do Mercosul com outros países e blocos econômicos. A verdade é que o Brasil e o Mercosul avançaram de forma extremamente tímida nas suas negociações de livre comércio, de um modo geral. Durante o governo Lula, praticamente só houve a inclusão de um acordo entre o Mercosul e Israel, que é relativamente abrangente mas é com um país pequeno. E houve um acordo com a Índia, que incluiu muitos poucos produtos e é pouco representativo. Fora estes dois, que já entraram em vigor, somente os países do sul da África, a Palestina (?) e o Egito têm acordos firmados, porém que ainda não vigoram com o Mercosul.

Fora isso, segundo o site do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, a única negociação em andamento é com a União Europeia, mas está travada por causa da Argentina e suas infames DJAIs (isso merece um post específico). É pouco, muito pouco para um país que deseja ser um dos líderes mundiais neste século.

O Brasil precisa de mais abertura e menos proteção para conseguir ser mais competitivo. O atual governo está fazendo exatamente o contrário. E é por isso que eu tanto temo pelo futuro, pois não me parece que estamos indo para a melhor direção.