Análise da discografia do Ramones (parte 1)

21 06 2009

Esses dias me dei conta de que este blog está muito monopolizado no assunto futebol. E não era a minha intenção quando eu o criei – a ideia era falar sobre coisas que eu gosto e que eu domino. Portanto, vamos variar um pouco.

Agora que meu carro finalmente tem um rádio com MP3, resolvi preparar um CD com a discografia completa (de estúdio) do Ramones. Os arquivos somaram o curioso valor de 666 Mega. Já faz alguns dias que tenho me deleitado com os discos que ouvi EXAUSTIVAMENTE durante minha adolescência. Minto, pois eu nunca me cansei de ouvi-los. É provavelmente a banda que mais me influenciou naquela época, apesar de que várias outras entram neste “hall da fama” da minha mente. Pra vocês terem uma ideia, eu AINDA lembro da maioria das letras das músicas do Ramones. E fazia uns bons anos que eu não ouvia (e lamento muito).

Hoje, enquanto ouvia MONDO BIZARRO, tive a ideia de fazer uma avaliação destes discos. Afinal, hoje, após tantos anos de distância da maior banda punk de todos os tempos (Sex Pistols é bom, mas Ramones é melhor), creio que posso fazer uma análise sem vícios e comentários do tipo “todos os discos são excelentes”, comuns entre os fãs. Pode parecer SACRILÉGIO, mas nem todos os discos do Ramones eram excelentes. E uns eram melhor do que outros. É isso que eu tentarei resgatar, a partir de hoje. Óbvio que farei isso em ordem cronológica, de RAMONES (1976) até ADIÓS AMIGOS (1995).

EVIDENTEMENTE, trata-se da minha opinião, pessoal e intransferível. Não me linchem, mas comentem caso tenham opiniões contrárias. A discussão é sempre bem vinda.

Ao trabalho, então.

Ramones (1976)

sempre ri muito do Joey nessa foto, todo torto

sempre ri muito do Joey nessa foto, todo torto

É o primeiro disco. Levou 2 dias para ficar pronto e custou apenas US$ 6.400. É AUDÍVEL a baixa qualidade das gravações, que tem um pouco a ver com a época em que foi gravado, mas muito também pelo baixo custo e a qualidade duvidosa do estúdio utilizado, penso eu. No entanto, é um conjunto de músicas ótimas, simples, cruas, que dizem muito sobre o que foi a banda. Sem dizer na importância de ter sido um dos primeiros discos do gênero.

As letras são geniais. Falam de amor (muito), mas falam também de “bater no pirralho com um taco de baseball” (melhor frase de todos os tempos), ou de “agora quero cheirar um pouco de cola”. Muito mestres.

– lançamento: Abril de 1976
– formação: Joey (vocais), Johnny (guitarra), Dee Dee (baixo e vocais) e Tommy (bateria)
– faixas:
1. Blitzkrieg Bop: o que dizer de “hey ho let’s go”? SENSACIONAL.
2. Beat on the Brat: ótima. Espero que ninguém tenha feito isso de verdade.
3. Judy is a Punk: sempre achei “Sheena is a punk rocker” tivesse algo a ver com esta música. E talvez tivesse. Ótima.
4. I Wanna Be Your Boyfriend: é uma balada romântica. A prova de que os punks também amam. Ótima.
5. Chain Saw: o barulhinho da serra no começo é massa. Boa.
6. Now I Wanna Sniff Some Glue: 4 frases repetidas várias vezes, como tantas outras músicas dos Ramones seriam no futuro. Ótima.
7. I Don’t Wanna Go Down to the Basement: “ei pai, eu não quero ir pro porão. Tem algo lá”. Excelente.
8. Loudmouth: é a que eu menos gosto deste disco. Mais ou menos.
9. Havana Affair: “baby baby make me mambo”. Boa.
10. Listen to My Heart: Ótima.
11. 53rd & 3rd: evidentemente trata-se de um endereço, uma esquina, de NY. Fala aparentemente de um garoto de programa. Excelente.
12. Let’s Dance: é um cover, muito bem executado. Ótima.
13. I Don’t Wanna Walk Around With You: duas frases, o título (repetido TROCENTAS vezes) e “I Don’t Wanna Go Out With You” (dita uma única vez). Ah, esqueci de outra palavra: “ooooo”. Excelente.
14. Today Your Love, Tomorrow The World: visivelmente a letra é de Dee Dee Ramone, que passou a infância na Alemanha, poucos anos depois do fim da 2a Guerra Mundial. SENSACIONAL. A melhor do disco.

Leave Home (1977)

Este é o primeiro dos dois discos lançados pelos Ramones em um mesmo ano. O conteúdo é parecidíssimo com o do primeiro disco, com a manutenção do mesmo estilo e músicas curtas e eficientes. Parece que a banda estava mais experiente e o resultado ficou ainda melhor. Adoro muito este disco, com todas as minhas forças. Assim como no caso do álbum anterior, praticamente todas as músicas são ótimas.

Pra variar, o segundo LEMA dos Ramones (depois de Hey Ho Let’s Go) saiu deste álbum – no final de “Pinhead”, Joey canta o indefectível e INESQUECÍVEL “Gabba Gabba Hey”.

– lançamento: janeiro de 1977
– formação: Joey (vocais), Johnny (guitarra), Dee Dee (baixo e vocais) e Tommy (bateria)
– faixas:
1. Glad To See You Go: uma música ligeiramente diferente dos sons do primeiro disco, especialmente no refrão: “glad to see you go go go go good bye”. Excelente.
2. Gimme Gimme Shock Treatment: mais um título genial. Ele quer ir fazer um tratamento de choque, por indicação de um amigo, pra ficar sempre feliz. Excelente.
3. I Remember You: balada romântica. Ótima.
4. Oh, Oh, I Love Her So: me parece que tem algo de anos 50, mas não consigo explicar. Talvez os “ooooh ooooh” do início. Excelente.
5. Sheena Is a Punk Rocker: nem me lembro de quantas vezes me esgoelei no banheiro cantando este som (e provavelmente fazendo os vizinhos duvidarem da minha sanidade). Esta música substituiu “Carbona Not Glue”, que foi BANIDA pelos censores americanos, por isso “Sheena” está presente também no álbum seguinte, “Rocket to Russia”. Excelente.
6. Suzy is a Headbanger: “Ooo Whee, do it one more time for me”. Excelente.
7. Pinhead: “I don’t wanna be a pinhead no more”. Pasmem, mas eu acho este som apenas EXCELENTE. E não é a melhor do disco.
8. Now I Wanna Be a Good Boy: ótima.
9. Swallow My Pride: as palmas são geniais. Excelente.
10. What’s Your Game: baladinha. Mais ou menos.
11. California Girls Sun: cover dos Beach Boys (que eles adoravam) de Joe Jones (obrigado ao Álvaro Neto pela correção). Excelente.
12. Commando: “they get them ready for Vietnam”. “First rule is: the laws of Germany. Second rule is: be nice to mommy”. Ótima.
13. You’re Gonna Kill That Girl: começa tipo balada depois volta ao ritmo normal dos Ramones. Excelente.
14. You Should Never Have Opened That Door: 3 frases. Menos de dois minutos. A letra é FREAKING GOOD. SENSACIONAL.

Rocket To Russia (1977)

simples. p&b. melhor impossível

simples. p&b. melhor impossível

Este foi o primeiro disco dos Ramones que eu conheci – meu amigo José Mathias (a.k.a. ZEMA) tinha o vinil dele. Pra mim é o melhor disco da banda. Impossível não ficar cantando 100% das músicas, com entusiasmo total. Eu pelo menos me vi fazendo isso, dentro do carro, de forma irreversível.

Visivelmente, os Ramones são influenciados pelo SURF ROCK neste álbum, não apenas pela faixa “Surfin’ Bird” (ultra-mega clássica), mas por várias outras. Um grande erro estratégico terem lançado este disco no inverno. Se tivessem lançado no verão, talvez tivesem vendido mais.

– lançamento: dezembro de 1977
– formação: Joey (vocais), Johnny (guitarra), Dee Dee (baixo e vocais) e Tommy (bateria)
– faixas:
1. Cretin Hop: viciante. “my feet won’t stop doin’ the cretin hop”, “Four five six seven, all good cretins go to heaven”. SENSACIONAL.
2. Rockaway Beach: surf e punk. Provou ser uma bela combinação. SENSACIONAL.
3. Here Today, Gone Tomorrow: a primeira balada do álbum. Meio enjoada. “Apenas” ótima.
4. Locket Love: Ramones em sua essência. Mas com novo romantismo. Excelente.
5. I Don’t Care: de novo, 3 frases. Ramones é genial por essas coisas. Ótima.
6. Sheena is a Punk Rock: tão excelente quanto no “Leave Home”.
7. We’re a Happy Family: diz-se que essa música refere-se à infância de Joey. Será que seu “daddy likes men”? Excelente.
8. Teenage Lobotomy: letra bizarra (alguns amigos meus entendiam “o pai e a mãe” no começo da música). Música SENSACIONAL. (cara o que que é “DDT keeps me happy”?)
9. Do You Wanna Dance?: mais um som “coverado” dos Beach Boys, embora haja uma versão famosa de Johnny Rivers. Lamento, mas esta versão ficou muito melhor que a original. SENSACIONAL.
10. I Wanna Be Well: totalmente FREAK. Apologia não só às drogas, mas à VENENO, qualquer coisa que faça mal. SENSACIONAL.
11. I Can’t Give You Anything: se os Beatles admitiram que eram pobres mas se esforçavam, porque os Ramones não poderiam fazer o mesmo? Excelente.
12. Ramona: balada. Excelente.
13. Surfin’ Bird: cover de uma banda chamada “The Trashmen”, de 1963. Totalmente surf, até no nome. Impossível alguém não ter PIRADO em alguma festa quando esta música tocava (e sempre tocava). SENSACIONAL é pouco pra ela.
14. Why Is It Always This Way?: “now she’s lying in a bottle of formaldehyde”. Lembro da contracapa do vinil, com o desenho da mulher dentro de um frasco de vidro. Letra totalmente mórbida. Música totalmente SENSACIONAL. Pra mim, a melhor do álbum.

Estes três primeiros álbuns representam a primeira fase da banda, com o punk mais cru possível. Embora estejamos falando de apenas dois anos. O quarto disco já mostra uma diferença considerável no estilo musical, que seria intensificada nos discos seguintes. Nesta “parte 1” da minha análise, incluirei ainda o quarto álbum, pois é uma espécie de “álbum de transição”.

Road To Ruin (1978)

acho esta capa muito massa

O álbum “Road To Ruin” marcou a saída de Tommy das baquetas ramonísticas, passando o bastão (literalmente) para Marky, que viria a ser o baterista que mais tempo ficaria na banda. Como eu já disse acima, este disco mostra mudanças consideráveis no estilo musical e na harmonia de suas músicas, em geral. Acredito que eles queriam mostrar que podiam fazer mais do que 3 acordes.

Não se preocupem, apesar das mudanças, este disco continuou sendo excelente.  Talvez seja o álbum com o menor “índice de rejeição”, por assim dizer. E tem “Needles and Pins” que é um cover, não tem nada a ver com os Ramones, mas é MARAVILHOSA.

– lançamento: setembro de 1978
– formação: Joey (vocais), Johnny (guitarra), Dee Dee (baixo e vocais) e Marky (bateria)
– faixas:
1. I Just Wanna Have Something To Do: aqui a mudança já se vê com muita força. Parece que eles tocam com mais seriedade, mais peso, mais força. O resultado é SENSACIONAL.
2. I Wanted Everything: Ramones are back. Ao que era antes. Mas não exatamente. Ficou excelente.
3. Don’t Come Close: balada romântica. Algo de country também. SENSACIONAL.
4. I Don’t Want You: punk natural. Excelente.
5. Needles and Pins: cover de um som gravado por Jackie DeShannon, em 1963 (thanks Wiki). Difícil explicar o que é esta música. Não tem absolutamente NADA A VER com Ramones. Mas ficou SENSACIONAL com a voz lúgubre de Joey. Pra mim, divide o ranking de melhor do álbum com outro som. Fácil de entender.
6. I’m Against It: só pra não deixar a galera esquecer o que eles são de verdade. Ótima.
7. I Wanna Be Sedated: vejam o clip abaixo pra entender porque este som é SENSACIONAL e é também o melhor do disco:

8. Go Mental: básica. Ótima.
9. Questioningly: música de Dee Dee, uma verdadeira balada country. Linda. SENSACIONAL.
10. She’s The One: roots, mas romântica. Excelente.
11. Bad Brain: outra bem tradicional. Ótima.
12. It’s a Long Way Back: três frases – você ao telefone, você totalmente sozinho, é um longo caminho de volta à Alemanha. Obviamente de Dee Dee. SENSACIONAL.

A partir daqui, o troço passa a ser mais PROFISSA. É, os Ramones contrataram Phil Spector para produzir o disco seguinte, END OF THE CENTURY. As mudanças foram gigantescas. Parece que algo se perdeu…

Mas deixarei isso para a Parte 2.

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3 responses

21 06 2009
Natusch

Bom, Ramones é um assunto que me deixa um tanto quanto FALANTE, talvez por ser uma das bandas que mudou a minha vida, vai saber… =P

Enfim, rápidos comentários:
1) DDT é o inseticida famoso, que provavelmente mantém os caras felizes do mesmo jeito que Carbona, cola e outras coisas do tipo… O início da música (“DDT did a job on me / now I am a real sickie”) ganha ainda mais em genialidade assim =P
2) “Today Your Love Tomorrow the World”, para mim, é um tema épico de um jeito que só os Ramones poderiam fazer. Dois minutos e um pouquinho, e soa simplesmente GRANDIOSO. Genial é pouco para essa música;
3) A vrs original de “Surfin Bird” é bem parecida com a ramônica, nessa eles não mexeram quase nada – ainda bem;
4) Eu acho “Loudmouth” bem legal, sabe – sem contar que ela abriu vários shows do início da carreira da banda. Joey dizendo “we are The Ramones and you’re a loudmouth baby, you better shut it up” antes de começar a tocar era de arrepiar;
5) A sujeira do primeiro disco é bem proposital, na verdade. Eles queriam inclusive reproduzir o clima dos discos em mono dos anos 50 e 60, por isso a mixagem primária: guitarra num lado, baixo no outro, bateria no meio e voz na cara. Li até há muitos anos atrás uma entrevista do Craig Leon, produtor do disco, na qual ele dizia que a remasterização em CD tinha arruinado o som do disco, que só uma vrs não-oficial lançada na Austrália conseguia reproduzir legal a idéia da gravação original – sim, é sério isso, hehehe;
6) Road to Ruin é, para mim, o melhor disco da banda. Concordo contigo, ele tem um toque um pouco mais sério e compenetrado, como se eles tivessem se determinado a gravar um grande disco e não apenas entrado no estúdio e gravado algumas músicas. Para mim, o resultado é divino – as músicas soam cruas e elaboradas ao mesmo tempo, tocadas com despojamento mas com seriedade, é difícil explicar mas é muito empolgante. E “It’s A Long Way Back” é um dos melhores riffs que já ouvi.

Continuarei acompanhando a série e dando meus pitacos, pode deixar =P

21 06 2009
Gustavo

Bah, valeu pelos comentários e, por que não dizer, acréscimos.

Só pra constar, eu sabia o que era DDT. Mas é bizarro tu imaginar que um INSETICIDA poderia DAR BARATO, ou sei lá. Apenas dá mais genialidade ainda à banda.

6 07 2009
Álvaro Neto

E ai cara,

parabens, vc fez em seu blog algo q tenho vontade de fazer no meu a um tempao mas tenho preguiça, analisar som por som do Ramones.
Discordo de muitos pontos com voce, mas é justamente isso que me fez ler seu post (se fosse pra ler oq eu ja sei/penso nao tinha perdido meu tempo).
Uma observação é q o som do Leave Home não é CALIFORNIA GIRLS e sim CALIFORNIA SUN e não é dos beach boys é do Joe Jones que ficou famosa quando gravada pelos Rivieras.

é isso ai,
abraço,
t+

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