O projeto ABC (parte 1)

6 05 2013

Gostaria de compartilhar com vocês um assunto que me foi apresentado durante o meu MBA Executivo Internacional, que cursei na UFRGS entre 2011 e 2012. Foi na disciplina do meu caro professor (e agora orientador da minha dissertação de mestrado) Walter Nique, que estava apresentando as origens do Mercosul. Confesso que nos meus 5,5 anos do curso de Comércio Exterior não passamos nem perto deste texto, que muito me estarreceu.

Vamos a ele.

Em 1953, muitos países da América Latina era comandada por ditaduras, militares ou civis. Ou por ex-ditadores. A Argentina estava quase no fim do segundo mandato do General Juan Domingo Perón, possivelmente o mais popular de todos os presidentes daquele país. Tanto que até hoje, uma das vertentes do Partido Justicialista é denominada de “Peronista”. O Brasil era comandado por Getúlio Dorneles Vargas, democraticamente eleito, que viria a suicidar-se no ano seguinte. O Chile era presidido por Carlos Ibáñez Del Campo, militar democraticamente eleito, também.

Perón era um presidente amplamente popular, tendo sido responsável por uma legislação que ampliava direitos dos trabalhadores, embora seu país estivesse passando por dificuldades, algumas delas atribuídas às leis potencialmente “populistas” aprovadas por ele. Muitos argentinos reconheciam uma “semidivindade” na figura do viúvo de Evita.

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O que me deixou impressionado foi o conteúdo desse discurso de Perón. Na minha humilde opinião, é um ponto de vista inovador para os padrões da época e que poderia perfeitamente posicionar o mandatário argentino como um visionário, já que, se a sua ideia tivesse sido bem recebida pelos três países e sido aplicada ainda naquela época, talvez poderíamos ser nações bem-sucedidas hoje. Quero me aprofundar e vou citar alguns trechos do texto aqui. Mas recomendo sua leitura integral.

Perón, em 1953, abriu seu discurso afirmando que o mundo estava SUPERPOVOADO e super industrializado também. É um pouco engraçado, já que em 1953 o mundo deveria estar com aproximadamente 2,5 bilhões de habitantes, muito menos da metade dos atuais 7 bilhões. O Brasil tinha uns 55 milhões (hoje são 200 mi) e a Argentina tinha cerca de 17 milhões e hoje conta com pouco mais de 40 milhões de habitantes. Provavelmente, com esta visão algo malthusiana, ele dificilmente imaginaria que o mundo estava longe de estar superpovoado. E que a industrialização ainda tinha muito campo para crescer, especialmente na Ásia. Mas, com base nessa lógica, ele percebeu que a América do Sul, relativamente menos populosa e com grande oferta de recursos naturais e terras aráveis, poderia ser chave para alimentar (literalmente) este crescimento.

Es indudable que nuestro continente, en especial Sudamérica, es la zona del mundo donde todavía, en razón de su falta de población y de su falta de explotación extractiva, está la mayor reserva de materia prima y alimentos del mundo. Esto nos indicaría que el porvenir es nuestro y que en la futura lucha nosotros marchamos con una extraordinaria ventaja frente a las demás zonas del mundo, que han agotado sus posibilidades de producción alimenticia y de provisión de materias primas, o que son ineptas para la producción de estos dos elementos fundamentales de la vida.

(Ele repete MUITAS vezes a palavra “indudable”, inclusive em temas meio duvidosos. Acho que ouvindo o discurso isso talvez não incomodou tanto, mas ao ler a transcrição, salta aos olhos).

Depois, ele expõe que a falta de alimentos ou matérias-primas poderiam fazer as nações superpovoadas e superindustrializadas e, portanto, detentoras de grande poder, de usá-lo para obterem o que necessitassem, “quitándolos por las buenas o por las malas”, usando as palavras do próprio Perón. Eu não gosto nada de teorias conspiratórias nem de paranoias, mas, nos tempos atuais e principalmente nos futuros, quem pode descartar essas hipóteses?

Em seguida, enumera diversas oportunidades de união continental na América do Sul desde 1810, com San Martín, Bolívar, Congressos do México, admitindo que a Argentina foi uma das principais culpadas pelo fracasso destas tentativas, por uma visão “isolacionista
e egoísta” de seus antecessores. Segundo ele, o Chile foi um dos principais defensores da iniciativa. É importante ressaltar que, num primeiro momento, o discurso de Perón está mais justificado na união dos países pela DEFESA do continente, considerando a visão meio paranoica, meio realista de que somos (América do Sul) vulneráveis.

Los grandes imperios, las grandes naciones, han llegado desde los comienzos de la historia hasta nuestros días, a las grandes conquistas, a base de una unidad económica. Y yo analizo que si nosotros soñamos con la grandeza que tenemos la obligación de soñar para nuestro país, debemos analizar primordialmente ese factor en una etapa del mundo en que la economía pasará a primer plano en todas las luchas del futuro.

La República Argentina sola, no tiene unidad económica; Brasil solo, no tiene tampoco unidad económica; Chile solo, tampoco tiene unidad económica; pero estos tres países unidos conforman quizá en el momento actual la unidad económica más extraordinaria del mundo entero, sobre todo para el futuro, porque toda esa inmensa disponibilidad constituye su reserva. Estos son países reservas del mundo.

Grifei algumas frases do parágrafo acima que dão conta da ideia da união ABC (Argentina, Brasil e Chile) como forma de criar a “unidade econômica mais extraordinária do mundo” entre os “países reservas mundiais”. Há de se lembrar, sempre, que a realidade de 1953 certamente diferia muito da atual, embora o agronegócio e a extração mineral continuam sendo os carros-chefe da economia dos três citados países.

Não disponho atualmente de tempo para aprofundar-me melhor sobre outras fontes de informação que pudessem “casar” melhor este discurso com dados brasileiros e chilenos, além de outros comentários da própria Argentina. Desejo muito fazê-lo logo em breve. Portanto, tomarei aqui somente o conteúdo deste discurso, supondo que algumas de suas afirmações sejam verdadeiras. Faço esse parêntese porque Perón diz, um pouco mais adiante, que esteve, nos seis anos de seu primeiro mandato, preparando o povo para aceitar esta proposta. Diz também que conversou tanto com Vargas como com Ibáñez e ambos receberam muito bem a ideia.

Perón diz não se iludir demasiado com tais manifestações, pois tinha consciência de que o desejo do presidente pode passar bem longe da possibilidade de torná-lo realidade. E que sua concretização passaria pela oposição de setores muito poderosos nos três países. No seu entendimento, essa união teria que emergir do povo, não dos governos. Gostei muito dessa frase, pois ajuda a explicar porque a União Europeia é um sucesso (e é sim um sucesso, mesmo com a atual crise) e porque o Mercosul está definhando.

Nos próximos dias publicarei a continuação dessa análise, especialmente sobre o resto do discurso de Perón, onde ele descreve os fatos seguintes e as tentativas de firmar os acordos com o Chile e o Brasil.

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