O projeto ABC (parte 2)

28 05 2013

Esta é a sequência do meu artigo anterior, que está sendo escrito baseado em um discurso do presidente argentino Juan Domingo Perón, proferido na Escuela Nacional de Guerra em 1953. Neste discurso, Perón relata à plateia seus esforços na tentativa de realizar uma união entre Argentina, Brasil e Chile (daí o nome ‘ABC’), com o objetivo de proteger estas nações contra eventuais tentativas das grandes potências de tomar para si os recursos naturais abundantes e também para fortalecer as economias destes três países, num primeiro momento e, em seguida, de toda a América do Sul. Recorrendo a referências históricas, especialmente do sonho dos “Libertadores da América” (Simon Bolívar, San Martín, O’Higgins), Perón faz, no meu entender, uma excelente leitura dos riscos e oportunidades existentes no mundo imediatamente após a Segunda Guerra Mundial e lança uma ideia que, se executada adequadamente, poderia ter sido a base de um projeto muito mais ambicioso que o combalido Mercosul.

A partir de agora, uma análise do restante do discurso, quando Perón faz um relato dos problemas que experimentou ao tentar criar entendimento entre os três países e sua leitura das causas do fracasso.

Perón relata que falou com aqueles que seriam presidentes em seus países – Getúlio Vargas, no Brasil e o general Carlos Ibáñez, no Chile. Não menciona quando houve os contatos, mas deve ter sido em 1950 ou 1951, já que Vargas tomou posse em 1951 e Ibáñez, em 1952. Disse que Getúlio Vargas estava totalmente de acordo com a ideia e que a poria em prática tão logo estivesse no governo e que o Gen. Ibáñez tinha igual opinião. Igualmente JDP disse que não se iludia com essas promessas, já que muitas vezes entre o desejo e a execução há uma grande distância e que, no caso específico do Brasil, havia um empecilho adicional – o Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores) que era um órgão supranacional, não controlado pelo governo. Eu incluiria um outro e mais importante empecilho – as Forças Armadas, mas é claro que o General Perón não faria isso, especialmente na Escola Nacional de Guerra.

Segundo o mandatário argentino, o Itamaraty entendia que o Brasil deveria estar numa posição hegemônica na América do Sul e, nas palavras dele, por parte da Argentina “son Ustedes más grandes, más lindos y mejores que nosotros; no tenemos ningún inconveniente”. Evidentemente são palavras carregadas de sarcasmo.

Vargas teria dito a Perón, já como presidente, que precisava dominar as câmaras legislativas antes de encaminhar este assunto – lhe pediu um pouco mais de tempo – seis meses. Passado o período, a situação estava ainda pior (segundo Vargas, ele estava “num mar de lama”) e Perón conversa com Ibáñez, recém empossado, que lhe diz que está de acordo e que aceita fazer imediatamente a aliança.

Perón escreve uma carta a Vargas e a encaminha através do embaixador brasileiro na Argentina, pedindo autorização para fazer o acordo primeiramente com o Chile, já que o prazo acordado havia expirado e o presidente brasileiro não demonstrava condições de evoluir nesta questão. A resposta recebida não só lhe dava autorização para fechar o acordo com o Chile, como também lhe autorizava a Perón a representar Vargas a fazer o acordo em nome do Brasil.

Neste momento Perón faz um comentário curioso:

“Naturalmente, ya sé ahora muchas cosas que antes no sabía; acepté sólo la autorización, pero no la representación”.

Quais seriam estas “muchas cosas”? E como ele teria sabido disso?

De qualquer forma, Perón foi ao Chile e reuniu-se com Ibáñez que, após algumas ressalvas, aceitou o acordo com a Argentina. Segundo o mandatário argentino, no dia seguinte ao fechamento do acordo, ainda no Chile, chegam notícias do Rio de Janeiro dizendo que o Ministro das Relações Exteriores brasileiro da época – João Neves da Fontoura, ministro de extrema confiança de Getúlio, deu várias declarações contrárias ao Pacto de Santiago (como estava sendo chamado o acordo), dizendo que ia contra os pactos regionais e que era a destruição da “Unidade Panamericana”. Disse que ficou totalmente “sem cara” quando o presidente Ibáñez, ao dar o bom-dia ao presidente argentino, comentou: “Qué me dice de los amigos brasileños”?

Quando Perón voltou a Buenos Aires, encontrou-se com o jornalista Geraldo Rocha, diretor de “O Mundo” e, segundo ele, muito amigo de Vargas. Rocha teria sido enviado por Vargas a Buenos Aires para informar-lhe que as coisas estavam muito complicadas no Brasil, seca no Norte, geadas no Sul, políticos em polvorosa e comunismo em alta. Que ele (Vargas) não pensava assim (da forma como disse o ministro Neves da Fontoura) mas que não podia mandar nele.

De fato, a situação de Vargas era complicadíssima. As coisas estavam tão fora de controle que, um ano depois, depois do atentado da rua Tonelero, em que o principal adversário político de Vargas, Carlos Lacerda, é alvo de uma tentativa de assassinato na frente de sua residência (acabou falecendo um major da aeronáutica, que estava no carro junto de Lacerda e seu filho).  Este fato desencadeia uma forte oposição dos militares ao governo Vargas (a quem foi atribuído o mando do atentado) que culminou no suicídio do presidente brasileiro.

Após este fato, o discurso de Perón encaminha-se para seu final, dizendo que os países têm de preparar-se para os grandes conflitos, não apenas entre dois países, que estava confiante de que a Argentina seguia pelo bom caminho e que acreditava que, em algum momento, isso (o acordo ABC) evoluiria. Inclusive mencionam o Paraguai como um possível próximo entrante e, de acordo com ele, eles poderiam incluir este e outros países sulamericanos no acordo até que não restasse opção ao Brasil senão aderir também.

Vou transcrever integralmente o último parágrafo, que diz muito desta visão muito peculiar do presidente argentino:

“La unión continental a base de Argentina, Brasil y Chile está mucho más próxima de lo que creen muchos argentinos, muchos chilenos y muchos brasileños; en el Brasil hay un sector enorme que trabaja por esto. Lo único que hay que vencer son intereses; pero cuando los intereses de los países entran a actuar, los de los hombres deben ser vencidos por aquéllos, ésa es nuestra mayor esperanza.

Hasta que esto se produzca, señores, no tenemos otro remedio que esperar y trabajar para que esto se realice; y ésa es nuestra acción y ésa es nuestra orientación.

Muchas gracias.”

Não sei se este discurso é sincero, se é demagógico (provavelmente não, já que este tipo de assunto não gera popularidade interna) ou se havia alguma intenção obscura por trás. Mas a verdade é que me surpreendeu muito que a Argentina tivesse esta visão de unificação da América do Sul no pós 2a Guerra Mundial. E, creio que se tivesse sido executada na época, estaríamos numa situação totalmente diferente hoje.

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11 05 2014
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Muito bom !

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